O título deste post em realidade vai tratar de dois problemas que atingem os médicos em atendimento em serviços de emergência, e não é um problema privativo de médicos de Pelotas, senão que de todos que trabalham em serviços de urgência/emergência.
A motivação para escrever este post resultou de duas entrevistas que fiz dia 17/12/2008 com uma médica e um médico que são testemunhas em um inquérito que está sendo instruído na Delegacia do CREMERS de Pelotas. Este inquérito trata da denúncia da mãe de uma criança que foi ao PS de Pelotas para atender sua filha que estava com uma crise de broncoespasmo. A denunciante alega maus tratos por parte da médica e por parte da estrutura do PS, que na visão dela, é péssima.
Durante a espera para o atendimento e durante o atendimento a denunciante, segundo o depoimento das testemunhas, mostrou sempre um comportamento agressivo para com a equipe de saúde, incluindo o porteiro do PS. Por fim, completamente insatisfeita e revoltada com tudo e com todos, acabou por tomar sua filha com broncoespasmo ao colo e levá-la do PS.
Esta situação motivou uma denúncia contra a médica ao CREMERS e isto motivou um inquérito que está sendo instruído nesta Delegacia e será posteriormente enviado ao CREMERS em Porto Alegre, que poderá resultar em processo ético.
Por motivos diversos muitos pacientes agridem por palavras e às vezes fisicamente os funcionários de estabelecimentos de saúde que atendem emergências.
Um dos motivos parece-me que é o resultado da posição que os serviços de emergência ocupam, quero dizer, são os para-choques do sistema de saúde. Todos os problemas esbarram primeiro no PS e por extensão nas pessoas que lá trabalham.
A estrutura do PS Municipal de Pelotas parece que realmente deixa muito a desejar, mas é um problema fora do alcance dos médicos e demais funcionários. É um problema essencialmente político e econômico-financeiro.
Conforme já escreví em um post anterior, um paciente falou-me que os médicos são, na opinião dele, os profissionais mais confiáveis. Jamais ele ouviu falar de um médico que tenha tido a intenção de fazer algo para prejudicar seu paciente. [Existem atitudes médicas que eventualmente prejudicam, mas a intenção sempre é melhorar, ajudar. Pessoas diferentes podem ter reações diferentes à mesma conduta.] Esta realmente é a idéia. Médicos e todos os participantes de equipes de saúde são treinados para ajudar, para acalmar, para reduzir sofrimento, para estar ao lado dos pacientes. Naturalmente, então, com certeza não é da vontade da equipe de saúde ver a sala de espera lotada e pacientes sendo atendidos deitados no corredor. Mas é assim que é. Porque? Nossos políticos utilizam a saude como trampolim para alcançarem seus desideratos políticos. Dizem em seus discursos eleitoreiros que vão resolver os problemas de saude da cidade e eleitores incautos votam nestas inverdades. Por outro lado, percebo que em nosso país as pessoas são educadas para receberem todas as coisas de presente, não estão sendo educadas para buscarem suas necessidades; muito mais fácil ficar em casa acomodado e o governo provendo suas necessidades. Ocorre que as necessidades são maiores do que aquelas que os governos proveem; surgem, então, as insatisfações que geram os conflitos nas portas de entrada do sistema de saúde.
Um assunto que preocupa é a forma irresponsável com que ocorrem denúncias contra médicos. Quem faz a denúncia geralmente a faz nos momentos de tensão, se deixasse passar algum tempo talvez pudesse repensar a situação com a cabeça fria e não levar adiante alguma queixa que em realidade não é culpa do médico. Para o médico, o inquérito inicial e posteriormente o julgamento pelo conselho e um eventual processo são coisas por demais desgastantes. O tempo para que ocorra todo o rito processual sempre é longo porque o conselho está abarrotado de denúncias. Todo este processo, em sí, já é uma condenação. Enquanto isto o denunciante não carrega nenhuma preocupação. Feita a denúncia contra o médico, o denunciante já tem sua primeira vitória; com isto também expia algumas culpas e insatisfações que carrega. Com certeza, na maioria das vezes não se interessa em saber o que resultou de todo o processo, contentando-se tão somente com a denúncia inicial. O denunciante nada tem a perder. O médico, por outro lado, perde a tranquilidade e sente-se profundamente atingido ao ser acusado de algo que ele julga completamente improcedente, porque contraria sua natureza.
Outro aspecto que gostaria de comentar é sobre o efeito destes conflitos sobre a satisfação da equipe de saúde.
Tanto o médico quanto a médica que foram depor mostraram a insatisfação de todos da equipe de saúde com os conflitos entre pacientes e familiares. A pressão sobre o pessoal gera ansiedade de tal forma que muitos tomam ansiolíticos, além de sofrerem de hipertensão arterial e outros males ligados a ansiedade. O médico relatou que no momento não faz parte da equipe do PS Municipal, conta que pediu demissão por se sentir inseguro no trabalho e por não tirar satisfação com o que estava fazendo. Resolveu trocar seu trabalho no PSM por uma UTI onde sente-se completamente seguro.
Além dos conflitos, outra fonte de ansiedade é a falta de retaguarda para o atendimento. Falta de exames, falta de medicamentos e a crônica dificuldade para hospitalizar aqueles que precisam de atendimento secundário.

